segunda-feira, 24 de março de 2008

O veneno comunista

O Laboratório de Venenos: de Lênin a Putin - Editora Nova Fronteira

Desde a Antigüidade, veneno e História caminham lado a lado. Cleópatra usou o de uma cobra para livrar-se da humilhação de cair prisioneira dos romanos. Napoleão teria sido vítima do arsênico. Saddam Hussein encontrou seu fim na forca por ter, entre outros crimes, envenenado aldeias inteiras de curdos com gás letal.

É dessa relação tão próxima que Arkadi Vaksberg tira o fio condutor de seu novo livro, O laboratório dos venenos: de Lênin a Putin, que desvenda o uso de substâncias tóxicas como arma política na Rússia, desde a extinta União Soviética, no início do século XX, até o momento atual.

No centro da estratégia de usar o veneno para destruir os adversários — pessoais ou do regime — estava o Gabinete Especial, um laboratório estatal criado para a pesquisa de novas substâncias tóxicas. Dela saíram as combinações químicas letais que puseram fim a uma enorme quantidade de vidas. Da vingança do Kremlin, poucos escapavam, seja no pelotão de fuzilamento ou numa caneca de cerveja envenenada.

Embora haja registros de envenenamentos de rivais pelos donos do poder em todas as épocas, é na revolução que levou os bolcheviques ao comando da Rússia, em 1917, que se verifica o uso mais amplo e irrestrito do veneno como arma. Tal escolha é consistente com um regime que procurou dissimular suas intenções violentas.

Vaksberg recua ao fim do século XIX, período de gênese da Revolução Russa, e mostra que Lênin, Béria e Stálin não hesitaram em lançar mão do assassinato por veneno quando uma morte menos suspeita era necessária para não comprometer a imagem do regime. E, ironia das ironias, segundo aponta Vaksberg, o próprio Lênin pode ter sido envenenado a mando de Stálin, impaciente em tomar de vez as rédeas do poder do velho e doente líder na década de 1920.

Atento tanto ao registro histórico quanto ao jornalístico, o autor é ágil o suficiente em seu relato para incluir o assassinato do ex-espião russo Alexander Litvinenko, por envenenamento com uma substância radiativa no ano passado em Londres. Crítico de Vladimir Putin, Litvinenko antes de morrer acusou o presidente — um ex-espião da antiga KGB soviética — de ser o responsável por sua morte. O fio da meada que leva ao Kremlin inclui mortes misteriosas de líderes chechenos e adversários de Putin. Para o autor, tais episódios são a confirmação de que velhas práticas ainda são correntes na Rússia do século XXI, apesar dos 16 anos decorridos desde a queda do comunismo.

Trata-se de um livro imperdível para quem quer entender os meandros do jogo político de bastidores, onde espionagem e assassinatos são lugar-comum, O laboratório de venenos é também uma excelente aula de história dos últimos cem anos.

Um comentário:

1000tão disse...

Eu não li seu texto, mas achei ele muito legal!! kkkkkkk

Vou guardar nos meus favoritos, assim que tiver tempo eu vou ler TODOS os posts.

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