sexta-feira, 18 de julho de 2008

O embuste da lei seca e a hipocrisia das autoridades

Por Josimar Melo


É inacreditável. Todo dia sai na imprensa a declaração de alguma autoridade afirmando coisas do tipo: "Lei seca faz cair n% dos acidentes".

Mentira! As mesmas estatísticas afirmam: "Acidentes nos dias de blitze". É óbvio que os acidentes estão diminuindo é por causa da fiscalização, não por causa das mudanças fascistas da lei.

Como eu já escrevi antes, algo mudou para melhor com a nova legislação, que é o fato de as penalidades serem maiores, pois bêbaddos no volante devem mesmo presos, multados, perder a habilitação e o que for. Mas dizer que os acidentes caíram "por causa da lei" é um tremendo embuste. Se as autoridades não fossem hipócritas, estariam dizendo: "Os acidentes estão caindo porque nós fomos incompetentes até hoje e nunca fiscalizamos nada; agora estamos fiscalizando, então o resultado aparece".

No lugar de admitir sua incompetência, estas autoridades, e a imprensa que as ecoa, e os puritanos de sempre, ficam fingindo que os resultados só aparecem porque a lei agora é fascista, trata os cidadãos como débeis mentais incapazes, compara um bêbado que está enchendo a cara na balada há seis horas (direito dele, mas não dirija) com um cidadão que tomou um chope com os amigos no fim do expediente e pega seu carro para ir para casa.

Reafirmo minha convicção. Bêbado não pode dirigir e tem que ser punido. E ao mesmo tempo, não admito que o Estado me proíba de exercer minha cidadania, me chamando de bêbado se eu não sou ou não estou. Pelo mundo afora há países com eficientes leis de trânsito, e com uma fiscalização que intimida os excessos -- e nesses países ninguém com duas ou três taças de vinho, sorvidas lentamente durante duas horas no jantar, é tido como bandido porque está guiando depois.

Como eu escrevi outro dia na Folha:
"No Brasil optou-se pela demagogia. Não é ainda a proibição total do álcool, mas é um belo passo: a lei dos sonhos dos moralistas, dos fanáticos religiosos, dos que sonham com uma humanidade conformada, careta e muito bem amestrada (típico destas leis de “tolerância zero”, como a política fascistóide do ex-prefeito Giuliani, de Nova York: “atire antes e nem pergunte depois”, pois a população em seu curral é por definição criminosa, o grande pai deve decidir por ela).

Mais uma lei que livra a cara dos ricos, joga água no moinho da caretice e sequer garante que, depois do show midiático, será realmente efetiva para coibir o verdadeiro problema –não o bebedor responsável, mas o bêbado criminoso que já poderia estar sendo contido, mas nunca foi. Será agora?"

Ah, e para os fanáticos que escreveram aqui no blog torcendo que alguém na minha família seja acidentado no trânsito, uma boa notícia para vocês: isso já aconteceu. Perdi meu pai quando criança, atropelado quando saía a pé do trabalho, numa madrugada após o fechamento, em frente ao jornal que dirigia. Como o motorista fugiu do local, não é possível saber se estava bêbado ou não. Talvez estivesse, é possível.

Mas não vou deixar que minha terrível dor pessoal sirva de motivo para que eu passe a apoiar nem fascistóides, nem fanáticos religiosos, nem puritanos de todo tipo que criam leis para nos colocar nas trevas, tutelados pelo obscurantismo de um Estado autoritário (seja laico ou religioso). Leizinhas deste tipo são somente o começo. Tô fora.

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