quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

As polêmicas da maternidade

Eu confesso que adoro uma polêmica. Na verdade, desconfio das unanimidades e dos julgamentos de "massa". Se quiser me fazer torcer o nariz pra algo, basta dizer que todo mundo acha aquilo certo. E não porque acha bacana ser "do contra". Mas porque nesse mundo de redes sociais onde todo mundo pensa que é especialista em tudo - pesquisas científicas,futebol, direto desportivo, rolezinhos, BBB e afins, só pra citar casos mais recentes - argumentos de massa quase sempre são burros. Sempre digo que se a maioria fosse sábia, Jesus não teria sido preterido a Barrabás (é uma analogia, ok?). As pessoas mal sabem interpretar uma ironia, mas é CLARO que elas estão certas sobre coisas tão distintas quando a "inocência da Lusinha", os "coitadinhos dos Beagles" e a "opressão contra os rolezinhos".

Dito isso, no geral, eu acho divertido dar opiniões contrárias e ver alguém ficar irritado comigo. Lógico que não faço isso com pessoas inteligentes e que respeito (independente de concordarem ou não comigo). Seja sobre futebol, política ou economia (meus temas preferidos), se eu dominar uma questão e tiver tempo sobrando (coisa cada vez mais rara), vou me divertir irritando a "massa".

Só que ai eu engravidei e precisei embarcar no universo "mãe". O que mais me impressionou foi: 1) que existem tantas ou mais polêmicas que em qualquer outro aspecto da nossa vida cotidiana; 2) que essas polêmicas não têm a menor graça. Porque não tem a menor graça ficar apontando pra qualquer mulher e dizendo que ela é uma mãe menos mãe ou qualquer coisa do tipo.

Vou exemplificar com um tópico que peguei no fórum de grávidas/mães que participo. Vejam.

Eu sou o MONSTRO que não amamenta

Quando minha filha nasceu eu tinha muito leite e, depois das dificuldades iniciais (descida do leite, colostro, bicos rachados, pega correta), eu consegui amamentar normalmente e EXCLUSIVAMENTE a minha filha. Era uma maravilha, o peito jorrava leite, eu me sentia a própria vaquinha mimosa. Mas essa felicidade plena só durou até ela fazer um mês de idade. 

Na semana em que faria um mês, Lorena começou a fazer o seguinte: mamava 5 minutos em um peito e começava a tirar e a botar a boca inúmeras vezes, irritada. Eu mudava de peito e o processo se repetia até que ela perdia a paciência totalmente e abria um berreiro sem fim. Ela tem refluxo e já estava em tratamento, mas mesmo assim levei ao pediatra. Lá eu expliquei a ele que a produção de leite estava normal, inclusive meu peito vazava o dia inteiro. Ele mudou o medicamento e nada resolvia, Lorena continuou fazendo todo esse processo do tira-bota-irrita-chora, um verdadeiro sofrimento para mim e para ela. 

Procurei o Banco de Leite Humano e pedi ajuda. Uma enfermeira veio me ajudar umas 3 vezes, mas nem ela com toda a sabedoria conseguiu fazer a Lorena mamar em paz como antes, tudo era regado a muito choro, pois ela ficava com fome. 

No exato dia em que fez um mês, depois de uma crise de choro absurda e eu tentando amamentar em todas as posições possíveis, inclusive colocando meu leite na mamadeira (ela sentia o gosto e cuspia tudo fora), meu marido pegou o carro e saiu em busca do Leite Artificial, o leite que, se eu pudesse, NUNCA teria dado para a minha filha. mas naquela noite eu não tinha escolha, minha filha estava com fome e não conseguia se alimentar. Ela mamou 90 ML de LA e dormiu tranquila, sem choro de fome e eu pude descansar a minha cabeça que estava a mil. 

Hoje ela tem dois meses e eu intercalo os dois, mas em relação ao peito ela continua do mesmo jeito, se irritando na hora de mamar. Ela Só não se irrita quando está sonolenta e eu dou de mamar sem ela perceber. Digamos que ela mama 80% LA e 20% LM durante o dia. 

Me dá muita dor ser julgada diariamente pela minha mãe, sogra, cunhada, amiga, tia... Todo mundo fica espantado quando vê que dou LA para a Lorena. O mais interessante de tudo é que ninguém quer ouvir a história do meu sofrimento e do dela, do quanto insisti e não consegui manter a amamentação exclusiva. Quando vou falar que minha filha estava literalmente passando fome, as pessoas parecem tapar os ouvidos e não ligam. É como se eu fosse um monstro. Um monstro que não amamenta. 

No final de semana passado eu viajei com a família do meu marido e, na mesma casa em que estávamos, tinha um bebezinho um mês mais novo que a Lorena, mas o menino era muito maior e mais gordo que ela, ela perto dele ficava pequenina demais. Ele só mama leite materno, o que foi um canal para as mais diversas comparações, claro. Todos da casa, digo TODOS, menos meu marido, me criticaram até onde puderam. Eles ''conversavam'' com o menino coisas do tipo: ''Ah, você vai crescer saudável, pois não toma aquele leite ruim que a Lorena toma"; ou então pegavam minha filha e diziam: ''Tão magrinha, coitadinha...". Foi tanta pressão que em um determinado momento fui no quintal da casa e chorei igual uma criança. 

Durante à tarde tentei dar o peito a ela na varanda da casa, o local mais calmo que tinha e daí começou o chororô. Todo mundo correu pra ver o que era, lógico, e puderam ver a cena que eu descrevia e ninguém acreditava. Apesar de eu ter ficado triste pelo choro da minha filha, fiquei feliz porque ali senti que de certa forma eu calei a boca deles por alguns dias pelo menos. Talvez alguns tenham entendido que não é questão de querer ou não. 

Mas o cúmulo dos cúmulos foi a tia do meu marido querer colocar minha filha para mamar na outra mãezinha que estava lá, que era mãe do menininho. Descartei logo a ideia de cara, disse logo um sonoro não. Não quero ser melhor que ninguém, mas minha filha é minha e é só em mim que ela deve mamar. E leite por leite eu também tenho, o problema é que ela não quer mamar. Nem se eu colocar na mamadeira o meu leite ela não aceita, o motivo disso nem eu e nem os médicos conseguimos descobrir. 

A ideia que quis passar com o meu relato é que não se deve julgar assim uma mãe. Só sabe da realidade quem passa por ela. Eu seria um monstro se tivesse feito como a esposa do meu tio fez, que comprou uma lata de NAN antes de ir para a maternidade e uma semana depois do parto começou a tomar remédio para secar o leite, pois o peito dela poderia ficar caído e isso é o fim do mundo, né? 

Graças a Deus o meu marido me apoia e me defende a cada alfinetada. Inclusive até combinei com ele de não rebatermos mais à críticas, pois isso cansa e desgasta o relacionamento com os ''juízes''. Silêncio no nosso caso é a melhor resposta, pois somos nós dois que a criamos e aguentamos todas as adversidades. Ufa, desabafei. Estava precisando. 


Quem teve paciência pra ler o relato até o fim, vai concordar comigo: qual é a graça em ficar criticando uma mulher que, apesar de todos os esforços, não conseguiu amamentar? Não, não tem a menor graça. É cruel, injusto e ridículo. E o que mais me revolta: as primeiras a enfiarem o dedo na fuça alheia e sairem julgando, são as outras mães que conseguiram ter parto normal, amamentar no peito exclusivamente até os seis meses e não dar chupeta/mamadeira para o filho - tríade pra ser considerada uma mãe "de verdade" segundo 80% dos blogs de maternidade que eu tenho lido.

É tanta hipocrisia que eu penso: será que a criatura que fica ali pregando  que você só é uma mãe de verdade se fizer tudo isso (se não fizer, é preguiçosa) pensa o mesmo da própria mãe? Porque, sim, essa moda (sim, é moda) de não poder dar nem água pra bebê é coisa recente. A maioria de nós, mulheres, que estamos aqui hoje, tomamos leite de vaca, tomamos água, comemos comida, tomamos mamadeira e chupamos chupeta. E tá todo mundo vivo, lindo e com saúde.

Esses dias, comentei no meu Facebook que ficava confusa diante de tantas opções de chupeta pra comprar, que achava que era mais fácil antigamente quando só tinha um tipo de chupeta e ponto, você só tinha que escolher entre a azul e a rosa. Obviamente, não perguntei se deveria dar chupeta ou não pra Luísa, até porque sou a primeira a tender não dar chupeta - só pretendo dar se for necessário e, se for, vou dar sim e ponto. Mas, pra que? Em dois minutos, o post estava cheio de comentários de gente falando A, B e C pra mim.

Compreendo perfeitamente a ânsia das pessoas em quererem ajudar as mães de primeira viagem como é meu caso. E agradeço, de verdade. O problema é que muitas pessoas não têm a menor ideia do que a pessoa está passando e porque ela está tomando uma decisão ou outra. No meu caso, quero ter a chupeta comprada porque, se eu precisar, já tenho a mão, não preciso sair pra comprar. Se eu tiver que optar entre minha filha ter uma noite tranquila de sono ou não chupar a chupeta, eu não vou pensar duas vezes em dar o acessório polêmico. Sempre penso que a gente tem que minimizar problemas. Chupeta você tira, dente torto, a gente conserta (embora eu tenha  chupado chupeta até quase oito anos e nunca tenha precisado colocar aparelho). Se ela não quiser a chupeta, não vai chupar. É simples. Não adianta eu ter opinião formada agora do que vai ser melhor pra Luísa, porque ela é uma pessoa diferente de todas as outras. Pode gostar da chupeta, pode não gostar. Pode mamar muito e pode não querer mamar como a Lorena do relato que compartilhei com vocês.

Cada pessoa é uma, cada bebê é um e cada mãe/pai tem seu jeito de educar e criar. Opiniões são bem vindas, mas julgar uma mulher mais ou menos mãe  por A, B ou C é o tipo de coisa que NUNCA deveria acontecer. Principalmente vindo de quem parte as críticas.

Não importa se a mãe amamenta ou não, dá chupeta ou mamadeira ou não, se fez parto normal ou cesária. O que importa, de verdade, são os valores, os cuidados, a educação e o tipo de pessoa que cada mulher está formando. Que princípios  estamos passando para nossas crianças. Pra mim, uma boa mãe é aquela que educa o filho para que ele seja uma pessoa honesta, correta e boa com seus semelhantes. O resto é grosseria desnecessária.


Nenhum comentário: