quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Era uma vez em Glória... (parte I)

Janaína é uma amiga de infância. Estudamos anos e anos juntas. Esses dias, ela disse que leu me blog e me pediu pra eu escrever algo sobre as loucuras” que fizemos naquela que costuma ser chamada de “a melhor época da vida das pessoas”: a adolescência. Como entre aspas porque, embora minha adolescência tenha realmente sido muito divertida, eu acho que todas as épocas das nossas vidas tem pontos positivos e negativos. Não acho que minha adolescência foi melhor ou pior que minha infância, do que o período da faculdade, do que o início da minha vida profissional ou do que agora. De qualquer forma, não poderia deixar de atender ao pedido da Jana.

E que loucuras fazíamos? Pois é. Comparado com a minha vida pós-Glória, acho que não fiz nenhuma. Mas me recordo de muita coisa e achei que poderia ser divertido escrever sobre elas. Então, bora nessa.

O que é ser adolescente no interior do Mato Grosso do Sul

A primeira e fundamental parte da série de posts com esse tema é tentar explicar o que é ser adolescente numa cidade de 20 mil habitantes no interior de um estado que, embora criado desde 1977, até hoje confunde os jornalistas da mídia nacional sobre qual é sua capital (não é Cuiabá, é Campo Grande).
Primeiro, todo mundo se conhecia. Com dez mil habitantes, fica impossível não saber tudo que todo mundo é/faz/compra/come/vai/está. Daí que não havia muito espaço pra ser diferente do “status quo” da época que significava ouvir Backstreet Boys, Spice Girls, música sertaneja, funk, pop rock e DJ Celso (o rei dos remixes de todas as festas da época).

Glória é uma cidade pequena e pacata. Dormia-se na época com as portas abertas se você quisesse. A maior preocupação que pais de adolescentes poderiam ter era da filha ficar grávida ou morrer num acidente de carro – porque lá, pelo calor, a galera bebe muita, muita, muita cerveja mesmo. Perdi dois colegas em acidentes entre os 13 e os 17 anos. E lá, se usava muito carro porque, pelas cidades serem muito pequenas e quase não termos opções de diversão, o que restava era peregrinar pra cidade onde ia ter festa no final de semana. Ou seja, pegava-se muito estrada. Mas nunca passei susto nenhum e sempre tive sorte de ter como amiga a única pessoa que conheço que dirige melhor bêbada que sóbria – a Rafa. A Rafa é uma amigona até hoje que devo conhecer desde que nasci – embora minha primeira lembrança seja do ursinho azul que ela me deu de presente no meu aniversário de 7 anos. Por ser 3 anos mais velha, foi a primeira a ter carro e era nossa motorista oficial. Sóbria, dirigia feito louca. Depois de beber, era extremamente cuidadosa e dirigia super devagar. Hoje, ela é uma conceituada professora, mãe de três filhos, mas até chegar nessa fase da vida, ela era aquela amiga que a mãe deixava você sair porque ia com ela.

Como em todo lugar, haviam várias turmas. Até os 12 anos eu não tinha uma turma. Sempre fui muito tagarela. Mas demorei demais pra me integrar a uma turma, porque era tímida (até hoje sou, pode acreditar) e me sentia feia/boba/chata perto de todas as outras meninas da minha idade (eu achava todas lindas e populares e eu era gorda e descabelada). Depois que superei essa fase, tinha basicamente duas turmas: minhas amigas da escola e minhas amigas de sair.

Minha turma da escola foi se formando à partir da sexta série, mas basicamente eramos eu, Renata, Janaína e Joice (a Michele também, durante um ano e pouco). A Renata eu conheço desde que me entendo por gente. Estudamos juntas desde a pré-escola e fizemos a pré-escola umas três vezes (acho) antes de ter idade pra ir pra primeira série. A Janaína eu conheci quando mudei de escola e fui estudar no Hilda Bergo. A Joice também fez pré comigo e eu conhecia desde pequena. A Michele conheci na sétima série – ela era amiga da Renata e quando voltou do Japão, caiu na nossa turma.

Minha turma fora da escola também se formou aos poucos e era bem maior. Em resumo, éramos: eu, Cássia, Paulyana, Rafaela, Gê, Monnik e Joyce (com participação especial da Cleia, irmã da Cássia em vários momentos), além da Aruza e da Vanessa que eram de Fátima do Sul. De tempos em tempos, umas sumiam, outras reapareciam mas, grosso modo, era isso. A Rafa eu já expliquei como conheci. A Cássia e a Paulinha, embora eu conhecesse há muito tempo, só fiquei amiga depois de adolescente (antes disso, elas tiravam sarro dos vestidos que minha mãe fazia pra mim e, logo, eu não ia muito com a cara delas, ahahah). A Monnik conheci nas aulas de jazz. A Gê conheci por conta da Paula e a Joyce eu não lembro exatamente como conheci, mas acho que foi na casa da Jaqueline (vizinha da Joyce que estudava comigo). A Aruza e a Vanessa conheci por conta da Rafa, que foi quem as conheceu primeiro.

Minhas preocupações, no geral, giravam em torno de 1) conseguir com que minha mãe deixasse eu ir praquela festa na qual a cidade inteira ia 2) ter dinheiro pra ir na tal festa (no geral, sair com R$ 30 reais era ser rico, praticamente) 3) ter roupa pra ir na tal festa. Durante a semana, a rotina era ir ao Clube Caiçara ver os meninos “cobiçados” da cidade e, particularmente no meu caso, entrar na piscina sem que ninguém me visse de biquíni (no caso da Cássia, também). Para isso, tínhamos uma ótima estratégia de sair do vestiário enroladas na toalha, ir até a beira da piscina, sentar, desenrolar a toalha correndo e cair dentro da água. Claro que não foram poucas as vezes que a toalha molhou ou que algum engraçadinho pegou a toalha na borda e escondeu – obrigando a gente a sair da piscina de biquíni pra meu total horror e desespero.
Lembro que boa parte da minha rotina entre 13 e 17 anos era: escola, casa, “tarefa” na casa de alguém da turma da escola, clube Caiçara até o horário de fechamento, casa, tereré na casa de alguém. Tudo era feito andando a pé ou de bicicleta, porque Glória não tem transporte coletivo (até hoje, e não precisa mesmo pelo tamanho da cidade, embora ter carro ajude demais dado o calor infernal de lá).

Dizem que bullying cria pessoas desajustadas socialmente. Acho que sou a prova de que nem sempre é assim. Ou já era pra eu ter matado muita gente por ai, ahahahah! Porque, embora sempre estivesse entre as melhores alunas da sala (estudar, pra mim, sempre foi fácil, achava a escola a coisa mais moleza do mundo), quando chegava as aulas de educação física, eu sempre era a escanteada. Idem para as partidas de vôlei no Caiçara ou na casa da Joyce (amarrávamos a rede de vôlei de um lado a outro da rua e, sempre que passava um carro, parávamos o jogo pra erguer a rede). Claro, perdi as contas de quantas vezes levei bolada na cara nas malditas aulas de vôlei –e todo mundo ria. Sempre fui um fiasco com esportes coletivos – e continuo sendo até hoje. Mas superei o bullying do vôlei (odeio esse esporte até hoje, maldito) e segui em frente. Até, porque, fora aquela maldita bola vindo na direção da minha cabeça, minha vida era realmente divertida.

Amava minhas amigas. Estudávamos juntas. Fazíamos tarefas. Adorava ensinar a matéria da prova para minhas colegas de classe e ajudar as outras quando tinham dificuldades em alguma lição. Lembro muito de ensinar biologia pra Joyce quando eu estava na oitava série e ela na sexta – hoje, a Joyce é uma fisioterapeuta maravilhosa e eu acho que perdi meu tempo estudando biologia. Entre um gole de tereré e outro, organizávamos festinhas (saudosos “Picafest”, um nome dado em homenagem ao querido amigo Márcio Pica Pau), trocávamos confidencias, fazíamos planos para o final de semana, falávamos sobre nossas paixonites/ficantes/namoradinhos e nos divertíamos de uma maneira muito saudável para os parâmetros atuais. Claro que isso não impediu que acontecessem coisas como metade da cidade ficar presa na delegacia da cidade vizinha, Deodápolis, num sábado à noite; xixis no meio da estrada pós baile do Havaí em outras cidades; ajoelha e chora em frente ao clube da cidade no meio da balada por excesso de álcool; fugas desesperadas de cachorros imaginários no carnaval graças à cerveja... entre outros momentos pra recordar e nunca mais esquecer.

Mas os detalhes ficam para o próximo post... :)


ps. nenhum post será ilustrado com imagens por motivos de 1) não tenho muitas fotos daquela época 2) as que tenho, se publicar, perco as amigas 3) achei uma foto de tereré no google, tá ai uma boa imagem pra ilustrar.

Nenhum comentário: